segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

SER RECEBIDA POR FLORES


Ah...! As flores não me receberam! Tive pena delas porque não sentiriam meu cheiro, não tocariam meus dedos, nem acariciariam minha pele. Não se emocionariam ao me verem e não se despetalariam desesperadamente por mim.
Queria dar-lhes este prazer, o prazer de me receberem.
Nunca fui dada a nenhuma flor em especial. É claro que algumas vezes uma ou outra me ganhou em ocasiões formais que requeriam que eu fosse entregue a elas, mas me pegaram sem emoção, como se estivessem recebendo qualquer outra pessoa. Eram indiferentes e desejavam, por vezes, jogar-me fora. Recebiam-me por educação. Achavam-me pálida, sem graça. Eu não tinha sido pensada especialmente para elas e era este o meu sentimento de dor.
Queria, um dia, ser recebida e acolhida por flores. Queria ser escolhida para elas e poder oferecer minha essência mais profunda. Queria que meus segredos fossem sorvidos por suas pétalas sensíveis e que elas, então, irradiassem a minha beleza, para que todos pensassem que delas é que vinha a cor e o perfume.
Que pena das flores!

EU NÃO SABERIA DIZER

Eu não saberia dizer. Não saberia dizer com palavras saídas da boca. Uma sensação de impotência quando me perguntam como eu sou e do que eu gosto. Estas são as perguntas cujas respostas são sempre as mais difíceis para mim. Não por não as saber, mas por elas morarem aqui dentro, por serem muitas, por se abraçarem, por se anularem e por ressurgirem.
A verdade é que elas se diriam sozinhas. Não precisam do meu auxílio.
Mas, quando me perguntam, sinto-me na obrigação de expulsá-las, de revelá-las e confundo-me. Elas me confundem. Vou vestindo as respostas para que elas se apresentem lindas, imaculadas e ao gosto do indagador.
Algumas respostas se sentem bem com as vestes, outras me odeiam e me desprezam. Desfilam com seus olhares aniquilantes e perplexos. Não convencem. Sinto-me desmascarada, despida.
A verdade reclama mais do que a nudez. Ela é cruel e arrebanha meus sentimentos mais primários.
Não sei me dizer. Eu sei me pensar e eu não penso com palavras porque elas são lineares demais. Elas me atrapalham, desvirtuam a velocidade das minhas idéias e as minhas idéias atropelam qualquer limite de velocidade estipulada pelos homens.
As minhas idéias não têm cor, não têm língua e não têm idéias... Elas não têm consciência de suas causas e conseqüências. Elas só adquirem corpo quando são vestidas e expulsas. Aí elas sofrem e eu sofro também.
Não me perguntem quem eu sou e do que eu gosto, porque eu não saberia dizer com palavras.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

UM ENCONTRO

Eles não se encontraram por um acaso. Moravam na mesma cidade. Imagine, num mundo tão grande, morarem na mesma cidade ele e ela! Além disso, pertenciam a uma mesma geração. Com tantas e tantas gerações para trás, imagine que nasceram na mesma época ele e ela!

Encontraram-se, assim, no ônibus. Ele se ofereceu para segurar sua bolsa. Queria oferecer até o lugar, mas como o faria? Ela aceitou. A bolsa não pesava. Ele não precisava segurar, mas ela gostou da possibilidade de ele segurá-la. Ele não estaria segurando qualquer bolsa e, sim, a dela. Ele pensou o mesmo, mas ela não sabia, é claro. Já pensavam até a mesma coisa, sentiam emoções parecidas, mas não compartillhavam, não podiam. Quem diria? Quem se exporia naquele momento?

O celular tocou dentro da bolsa. Ela ouviu e estendeu a mão. Ele ouviu e ofereceu a bolsa. Normalmente ela não atenderia. Não costumava fazer isso dentro do ônibus. Nunca ouvia uma palavra do que as pessoas diziam, por causa do barulho em volta. Mas percebeu uma oportunidade de interagir com ele. Desejou que ele ouvisse sua voz. Ele desejou a mesma coisa.

Os toques cessaram e eles se olharam num entendimento mútuo. Sabiam que tinham perdido a oportunidade. Ela teve vontade de dizer qualquer coisa do tipo "Parou" ou " As pessoas não têm paciência". Imaginou que ele poderia dizer "É verdade" ou "Eu sou do tipo paciente" ao que ela poderia responder "Gosto disso num homem"...e aí poderiam até falar mais coisas e, quem sabe, trocar telefones. Ele ficou com palavras engasgadas, com vontade de dizer "Pode ser que toque de novo" ou "Você quer que eu tire o celular da bolsa? Assim, se tocar de novo, você pode atender rápido" Ele pensou que, como o tema seria o celular, talvez pudessem trocar seus números.

Mas não foi assim. Ficaram mudos, na ânsia de mais um toque, ou até mesmo de toque nenhum. Poderiam tanto falar de uma coisa como de outra. Não disseram nada.

Neste momento, o ônibus deu uma freada que projetou os passageiros para frente. Algumas pessoas reclamaram, outras acordaram de sono profundo, algumas se desequilibraram. Eles riram. Riram da situação. Riram um para o outro. Riso mudo, cheio de idéias. O riso dele era lindo. O dela também. Tiveram vontade de falar, mas realmente, naquela situação, não caberia. Ele saberia que ela estava interessada, se ela falasse ; da mesma forma que ela saberia do interesse dele, se ele falasse. Não queria um que o outro soubesse. Não assim. Não naquele momento. Era a primeira vez que se viam. Mas pensavam as mesmas coisas. E começavam a perceber isso. Coisas assim nem precisavam ser ditas. As palavras talvez até estragassem aquele momento de silêncio sincero, de encanto mútuo. Eles não falavam, mas se sentiam correspondidos e gratos pela sorte de se encontrarem assim. Ela, feliz por ele segurar sua bolsa e, ele, feliz por segurar a bolsa dela. Momento de intimidade profunda. Naquele gesto, ele sentia um pouco mais dela e ela um pouco mais dele.

De repente, sentiram medo. Difícil dizer se sentiram medo juntos, mas ambos sentiram. Um tinha medo de que a viagem do outro pudesse estar terminando. Ela se inquietou. Ele se mexia no banco, segurando com firmeza sua bolsa, como se aquilo pudesse fazer com que ela ficasse mais. Nem um nem outro sabia que os dois desceriam no ponto final. E viveram uma grande agonia juntos. A ansiedade pelo tempo que se esvaía e a frustração de não trocarem uma palavra crescia.

De repente, ambos tiveram idéia parecida, o que já não era nenhuma novidade, ou talvez fosse ainda, para eles. Tiveram a idéia de comentar sobre um passageiro que chamava a atenção pela aparência esquisita e mal cuidada. Ele viu que ela tinha reparado e ela também percebeu que ele tinha visto. Um sabia o que o outro tinha achado. Cada um sabia que se fizesse uma pequena observação, o outro concordaria.

Mas o inesperado aconteceu, deixando a palavra suspensa no ar: o passageiro desceu do ônibus.

Um olhou para o outro. Os dois olharam o passageiro. Ele olhou para a bolsa, ela também.

O próximo ponto era o final. Eles estavam felizes, desceriam no mesmo ponto. Que coincidência!

A última oportunidade brilhou na mente de cada um. Decididos, olharam-se, esforçaram-se, devoraram-se e...entenderam-se. Ele entregou a bolsa num "Chegamos" que ela não conseguiu decifrar. Ela pegou a bolsa e murmurou um "Obrigada" tímido e sem jeito. Desceram do ônibus. Ele atravessou a rua. Ela ia continuar do mesmo lado da calçada. Eles seguiram. Cada qual em uma direção. Ainda fizeram algo ao mesmo tempo, respeitando a sintonia inicial: viraram-se, olharam um para o outro. Ele teve a certeza de que ela estava arrependida por ter perdido a oportunidade. Ela pensou que ele voltaria e, finalmente, falaria com ela. Mas ele não voltou.

Ambos estavam cientes de que o tempo não voltaria e sabiam que não se veriam de novo, mas permitiram...permitiram o momento passar...e foram cúmplices, como não poderia deixar de ser.

QUERER E TER

Quando eu era pequena, media o mundo pelos meus passos e, como eu precisava dar muitos para alcançar os lugares desejados, ele me parecia imenso. Os cômodos eram enormes, corria-se por eles livremente, os livros longos, as pessoas tão altas que me davam um certo medo. O mundo me engolia e minha necessidade de engolir o mundo crescia naturalmente e imperceptivelmente.
Nunca havia reparado na ânsia de possuir objetos, pessoas, carinhos e tudo que me aparecesse pela frente. Só me dei conta disso anos depois, quando já era criança crescida, vendo meus métodos infalíveis de possuir as coisas sendo utilizados pelos meus filhos também. Juro que nunca os ensinei e por esse motivo até me senti menos culpada, porque parecia feio querer possuir.
A brincadeira acontecia a qualquer momento, em qualquer lugar e situação, porque criança não perde tempo escolhendo ou esperando momento certo. Criança sabe que momento certo é sempre agora. A brincadeira consistia em olhar um objeto e dizer: "Aquele azul é o meu". Em seguida a outra criança dizia: "E o rosa é o meu." Isto era possível com a TV ligada e com aqueles apelos típicos de épocas festivas como natal e dia das crianças. Era fácil possuir um carro, uma boneca, um jogo, porque custava apenas os atos de querer e ter.
Da janela também era comum falar: "O primeiro que cruzar a rua vai ser meu namorado, o segundo para você, o terceiro para mim etc, etc..."
Era uma brincadeira deliciosa. Querer e ter. Íamos possuindo tudo. Um mundo grande que íamos tornando nosso pouco a pouco. Era como beber uma golada de água com a garganta seca. Não há sensação melhor. Satisfação, prazer, conforto. Nós nos sentíamos grandes, invadidos por um poder secreto, invisível, impalpável e, ao mesmo tempo, concreto.
Brincávamos de possuir o tempo também. Sempre dávamos um jeito de avançar pelas horas. As horas eram meras invenções descabidas de adultos. Por que não poder brincar até cair de sono? Deixar o relógio do corpo dar as ordens não seria mais sensato? Ouvir a tão famosa frase: "Está na hora de dormir!" era um ritual. Eu sempre tive vontade de saber em que convenção todos os pais haviam se reunido para chegarem no consenso da tão famosa "hora de dormir".
Bom, hoje, eu desenterro a velha frase e uso com meus filhos e, por que não dizer, sem dó nem piedade?
Hoje, os cômodos não me parecem tão grandes, as pessoas são do meu tamanho e, se eu quiser, possuo uma imensa área de terra num vôo simples ou num pequeno clique do mouse. Faço isso em segundos. Mas não me dá o mesmo prazer. Não tem a graça da sorte, do jogo, da burla.
Não brinco diante da TV ou da janela, porque, mesmo sem me dar conta, deletei estas atividades do meu cotidiano corrido. Esqueci-me de como me davam prazer, do quanto me libertavam. Virei escrava das horas num mundo que vejo sob diversos ângulos ao mesmo tempo. Iludo-me com isso. Acho que ganho tempo, dominando o espaço. Privo-me da doce inocência libertadora, de possuir espaço, tempo, tudo, em dois simples atos: o de querer e ter.

domingo, 14 de dezembro de 2008

DISPOSTAS EM CRUZ

A imagem do crucifixo deitado sobre o peito aberto ainda lhe ardia as retinas. Um convite mudo e franco.
Não era tanto pela beleza dos detalhes implícitos. Encantou-a por revelar a personalidade daquele homem que lhe oferecia uma paz buliçosa, despertando nela uma vontade mista de reverência e desacato.
Diante daquela imagem, suas idéias desenhavam-se e desagregavam-se num rodamoinho que a afastava da redenção desejada e a aproximava de um silêncio profano.
Hoje, lembrando daquele momento, daquela imagem, estendia as mãos como quem busca tocar um altar construído em nuvens desfeitas a cada vaga lembrança.
As mãos estendidas reclamavam mais do que um firme aperto de mãos, queriam tocar a alma, rogavam ao inexorável, queriam compreender a resposta de uma pergunta não feita.
As mãos reuniam-se, agora, atravessavam uma na outra em súplica discreta, dispunham-se em cruz, sentindo as batidas perfeitas de um coração sob um peito aberto, e sobre o qual elas se permitiam deitar.

domingo, 7 de dezembro de 2008

CARA METADE?

Quem inventou a história da cara metade? Os românticos de plantão perdoem-me... A metade não é cara porque não há nada de "caro" na metade! Ser inteiro e encontrar alguém inteiro é, sim, uma idéia cara. Principalmente porque se alguém inteiro se for, você continuará inteiro.
Ah, sim! Lembre-se de nem procurar. Encontre por acaso. Às vezes, procurar nada é uma boa maneira de encontrar alguma coisa, enquanto que procurando alguma coisa, há grandes possibilidades de você não encontrar nada.

INÍCIO E FIM

-Oi.
-Oi. Tudo bem?
-Tudo. E você?
-Bem também.
Palavra fática, enfática!
Matemática prática.
Mágica e...trágica
tática...