sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

GOTEIRA

Essa noite eu não dormi, não porque não tivesse sono ou estivesse preocupada com algo. Nada. Deitei cedo e preparei a roupa de dormir, fechei as janelas, arrumei a cama e deitei.


Não olhei o relógio, o sono já me pesava as pálpebras. Deitei na posição em que sempre me deito e isso é bem engraçado, encolho-me como um embrião, o corpo curvado, a cabeça encolhida para a frente e as próprias mãos voltadas para dentro, tortas. Acho que o momento de dormir é meio que uma volta ao útero. É um momento sagrado, em que se ganha liberdade. Ficamos tão livres que nos libertamos de nós mesmos, através dos sonhos, é claro. A respiração fica lenta, o semblante se acalma. Tudo em paz! Até o mais vil dos homens torna-se santo ao dormir.


Dizem que o sono tem vários estágios e eu não sei em qual deles ouvi o som de uma gota, na realidade, uma atrás da outra.


Eu poderia dormir com qualquer barulho, mas se havia algo que me irritava profundamente era ouvir o som de água se esvaindo. Era pior do que se estivesse jorrando. Estava gotejando. Isso me trazia o incômodo de quem espera algo, espera por horas. A água não ia embora livremente, pingava, ia sofrida, morria lentamente.


Em determinado momento eu já sentia meus ouvidos paralisados, dormentes. Eles já nem ouviam mais gotas, ouviam contas de um terço, soluços...Ouvia o tempo ir embora, o sono ir, o amor, a vida. Tudo fugia, escapava. E o que eu podia fazer? Nada. Não dormi.


Ao amanhecer não ouvi mais o som da goteira. O barulho do dia, do caminhar das pessoas, a algazarra das crianças, dos carros, das buzinas, tudo calava a goteira que, tímida, continuava a sofrer em silêncio. Só à noite é que ela se agigantava para me tornar pequena.


Na confusão dos ruídos do dia, eu tentava, desgraçadamente, separá-los, distingui-los, até encontrar o da goteira. Apurava os meus ouvidos, mas não consegui descobrir onde ela se escondia. Deixei pra lá. Preferi me enganar como, aliás, faço com todos os meus problemas. Finjo que resolvo, que eles já não existem. Calo um a um e arranjo sons que me possam distrair. Até no amor é assim, não é? Precisamos ouvir o som de um outro para calar o anterior. Enquanto não ouvimos novos sons, não conseguimos nos livrar daqueles que nos incomodam.


No caso da goteira, eu sabia que voltaria, que não adiantaria muito silenciá-la durante o dia. Então achei melhor conviver com ela, aceitar sua condição desprendida, abnegada. Dedicava-se com sacrifício a cumprir seu destino, não perdia o ritmo. Em outros termos, era até simpática.


Aceitar sua cadência era aceitar o ritmo e a fluidez compassada, se é que se pode dizer assim, da vida.

Um comentário:

Calvin e Seus Diálogos disse...

Permita-me um comentário: Só os justos dormem com a tranquilidade para perceber o som de uma gota. A leveza da alma permite tal sensibilidade.
E se posso continuar, um amor não cala o outro. O que cala é o que trazemos dentro de nós mesmos. Por isso, traga o melhor de si; coloque o balde para recolher cada gota do que realmente vale a pena. Com o tempo, vai perceber que o resto são somente gotas... reticênciais... espaços que preenchem os vazios servindo como pontes para o que realmente vale a pena.