domingo, 25 de janeiro de 2009

O BALAIO

A menininha levava o balaio de vime pela seara. Andava em passos lentos para não afugentar os pássaros. Ela gostava de pássaros. Deixava o espantalho espantá-los, que era sua função. Espantalho doido, espantava nada, era ridiculamente espantado pelo vento. E ela, menininha, pelo tempo. Mas não era doida, doida não. Era doce e carregava o balaio como quem carrega um segredo pesado e leve, grande e pequeno, segredo cheio de tudo, segredo cheio de nada...segredo.
A gente do lugar queria saber o que tinha no balaio que a menininha docemente e lentamente conduzia. Esticavam olhos, perguntavam, mas não conseguiam arrancar um nada dali.
O balaio vinha coberto por um paninho de renda bordado. A menininha bordava. Bordava pássaros. A menininha gostava de pássaros. Ela bordava amores também, escolhia lindas meadas para bordá-los, mas os fios escapavam, não terminou nenhum. Terminou pássaros, de todos os tipos, de todas as cores...
Ela caminhava juntando o balaio ao peito, agora tinha pressa. A noite começava a sorrir, os pássaros se recolheram. Balaio da mão ao peito, coração do peito à mão. O que havia ali dentro era a única coisa que a menininha tinha de fato, bem precioso. Tamanho era o cuidado que tinha ao carregá-lo, que quem olhasse pensaria que o balaio é que a carregava. Iam os dois, passando pela noite, pelo vento, pelo tempo...a menina ia com o coração leve, solto.
Chegando em casa, pousou o balaio num canto, onde acesso ninguém tinha. Tirou o paninho, olhou o balaio, sorriu riso de canto de boca que era seu riso matreiro, de quem sabe que segredo bom é aquele que se guarda a sete chaves ou num mero balaio.
Guardou o paninho com pássaros bordados. Lindos pássaros. Adorava... Era a única coisa que bordava com perfeição. Quando pássaro voa, ninguém consegue pegar. A menininha não queria ser pega. Não. Pensamento seu era só seu. Pensamentos são pássaros, são livres. Vão, voltam, não têm destino certo.
A menina não gostava quando a perguntavam no que estava pensando. Não há nada mais próprio do que o pensamento. Pensamento devia ser substantivo próprio, porque é particular, não se divide, é único. Por isso o guardava ali, com carinho de quem acabou de engendrá-lo...guardava com cuidado...ali...no balaio.

Um comentário:

Hugo disse...

É, Queen, seja balaio ou casulo, realmente o que nele é guardado realmente é muito precioso. Por sorte, há amizades indeléveis como a sua, permitindo que as preciosidades sejam compartilhadas. Beijão. Te amo!